Grego Koiné – Lição 3: Verbos (introdução e tempo presente)

Nesta terceira lição sobre o Grego Koiné veremos o uso dos verbos. A maioria dos livros de gramática e cursos costumam começar o ensino da gramática grega pelos substantivos. Foi assim que comecei também meus estudos no eTeacher. No entanto, quando comecei meu curso de grego pelo Mackenzie, começamos pelos verbos e, na minha opinião, foi um pouco mais fácil por possuir uma certa semelhança com o português. É esse método que seguirei.

ÍNDICE DE LIÇÕES DE GREGO JÁ DISPONÍVEIS

Lição 1 – História da Língua Grega
Lição 2 – Alfabeto e Transliteração
Lição 3 – Verbos (introdução e tempo presente)
Lição 4 – Substantivos (introdução a declinações e casos)
Lição 5 – Artigos
Lição 6 – Adjetivos

Antes de começar o estudo da gramática grega, gostaria de destacar dois pontos:

  • Primeiro: para entender a gramática grega é importante compreender a gramática da sua própria língua nativa, no meu caso o português. Essa é uma das grandes dificuldades que a maioria dos aprendizes do Grego Koiné ou de outras línguas tem – não conhecer a própria gramática.
  • Segundo: tendo em vista o primeiro ponto, nestas lições veremos, antes de mais nada, um resumo da gramática portuguesa relacionada com a gramática grega.

Em português

Na língua portuguesa, um verbo é toda palavra que indica ação (comer, beber, estudar), estado de existência ou estado “espacial” (ser, ficar), fenômeno natural (anoitecer, chover, ventar), ocorrência (acontecer, suceder), desejo (querer, almejar), etc. Mas a ideia base do verbo é essa: toda palavra que indica ação.

Assim como no português, no Grego Koiné o verbo tem tempo, modo, voz, pessoa e número. Chamamos esses aspectos de concordância verbal. No grego, assim como no português ,um verbo deve concordar com seu sujeito quanto à pessoa (primeira, segunda ou terceira) e ao número (singular ou plural). Sendo assim, se o sujeito é singular, o verbo deve estar no singular. Se o sujeito está na 2 pessoa, o verbo deve estar na segunda pessoa. Veja o exemplo abaixo:

EXEMPLO:
Errado: Tu comemos pão.
Certo: Tu comes pão.
Sujeito: Tu (segunda pessoa do singular)
Verbo no infinitivo: comer
Verbo conjugado na segunda pessoa do singular: comes

Notou quão estranha ao ouvido pareceu a primeira frase (em vermelho)? Isso é porquê ela não teve concordância entre o sujeito (tu) e o verbo (fazer). Na segunda frase (em verde), temos a concordância. O mesmo ocorre em grego.

O tempo

Outra característica dos verbos em português e em grego é o tempo. O verbo grego acima exemplificado (comer) está conjugado no tempo presente. Em português, os tempos “padrão” são: passado (pretérito), presente e futuro. É claro, temos tempos intermediários entre eles, mas não vem ao caso agora (embora virá no futuro). Usamos o tempo, em português, para expressar o momento em que uma ação é praticada. Já no grego, “a função principal do tempo verbal é expressar o aspecto, i.e a qualidade, o estado ou o tipo da ação” (Noções do Grego Bíblico, pg. 25).

Como diz o livro Noções do Grego Bíblico, “podemos dizer que o tempo verbal em grego não expressa em primeiro lugar o “quando?” da ação, mas sim o “como?” da mesma” (página 26). O verbo grego irá indicar se a ação já foi concluída, está em andamento, ou será feita. Também pode “transmitir a ideia de um estado que é resultado de alguma ação acabada anteriormente” (Noções de Grego Bíblico, pg. 26).

O verbo grego pode ter um aspecto durativo, um aspecto pontilinear ou um aspecto resultante.

O aspecto durativo é como o nosso gerúndio. Representa que quem pratica a ação está agindo. Ou seja, a ação está se desenvolvendo, em andamento, acontecendo, progredindo, mas ainda está incompleta. Chamamos isso de ação linear ou durativo. Exemplo: “João está falando com Maria”. João ainda está falando, pode levar um tempo para que ele acabe a ação de falar com maria.

O aspecto pontilear não se preocupa em descrever quanto tempo a ação levou, se foi rápida ou não ou como ela foi realizada. Se o verbo grego estiver no aoristo (veremos em um artigo futuro sobre o aoristo), por exemplo, pode expressar que aquela ação aconteceu, mas uma única vez. Caso a ação tenha sido feita no passado, entendemos em grego que é uma ação acabada. Exemplo: “Pedro falou com Maria”. Quando? Não sabemos… Só sabemos que Pedro falou com ela.

Já o aspecto resultante visa mostrar um estado alcançado. Mas, geralmente, esse estado só foi alcançado por causa de uma ação verbal que o precedeu. Veja o seguinte exemplo:

Ex.: No livro de Pedro está escrito que …

(Noções de Grego Bíblico, página 27)

Segundo Lourenço, “o verbo escrever, conjugado assim, indica, desta vez, que, em algum momento, alguma coisa foi escrita, e que está registrada e pode ser lida por todos. Há uma referência à ação de Pedro, apreciada através dos seus resultados.” (pg. 27)

Voz

O sistema verbal grego possui diferentes vozes, como no português. As vozes modulam a relação entre o verbo e o sujeito da ação verbal. Temos três vozes no grego koiné:

  • Voz ativa: o sujeito da frase é quem executa a ação (ou é quem “está” no “estado” da frase). Ex.:
    • “Paulo mata o antílope”. O sujeito, Paulo, executa uma ação, “matar”.
    • “Paulo é caçador”. O sujeito, Paulo, é algo – “caçador”.
    • “Paulo está com fome”. O sujeito, Paulo, está em um estado – “com fome”.
  • Voz passiva: o sujeito é quem sofre a ação. Ex.:
    • “Paulo é morto pelo Leão.” O pobre do sujeito, Paulo, sofre uma ação vinda do Leão – ele é morto pelo bichano.
    • “Paulo é caçado”. Notou como Paulo sofre uma ação?
  • Voz média: essa a gente não tem em português (embora tenha algumas semelhanças com a nossa voz “reflexiva”). O sujeito da frase executa a ação em si mesmo, em seu benefício (para si mesmo) ou de si mesmo.
    • Em si mesmo, onde o sujeito sofre os efeitos da ação. Ex.: Eu me martelo;
    • Para si mesmo, onde o sujeito faz algo para si próprio. Ex.: Eu desato o nó para mim
    • De si mesmo, onde o sujeito, por iniciativa própria, ou confiando nas suas próprias forças, executa uma ação. Ex.: Eu prometo.

Como se forma o verbo

Assim como no português, o verbo grego é composto, entre outros, por uma raiz e uma terminação de acordo com a pessoa e o número (singular ou plural).

A raiz é a parte do verbo que transmite o significado básico, a essência da palavra. A raiz normalmente não muda (embora isso possa e vai acontecer, é menos comum), o que geralmente muda é a terminação do verbo, assim como no português. Veja o exemplo (em português) do verbo falar (inf.) no tempo presente, modo indicativo (o modo indicativo expressa um fato, uma certeza):

Eu falo.
Tu falas.
Ele/Ela fala.
Nós falamos.
Vós falais.
Eles/Elas falam.

No caso desse verbo, fal” é a raiz e tudo que aparece depois são as terminações pessoais. Como saber a raiz de um verbo?

Uma das maneiras de saber a raiz de um verbo é, caso ele seja regular, vermos sua finalização no infinitivo. Falar está no infinitivo. A terminação é em ar. Sendo assim, para praticamente todos os verbos regulares terminados em ar, basta retirar a parte final do verbo (ar), e acrescentarmos a terminação de acordo com a pessoa e o número. No tempo presente, as terminações que substituem o ar são:

1˚ Pessoa do Singular: Eu -> -o
2˚ Pessoa do Singular: Tu -> -as
3˚ Pessoa do Singular: Ele/Ela -> -a
1˚ Pessoa do Plural: Nós -> -amos
2˚ Pessoa do Plural: Vós -> -ais
3˚ Pessoa do Plural: Eles/Elas -> am

Em grego, ocorre algo muito semelhante, conforme você verá no próximo tópico.

O tempo presente em grego

O tempo presente em grego denota uma ação contínua, incompleta. Por exemplo, o verbo λέγω significa “eu estou falando” e não “eu falo”. Essa é uma particularidade muito interessante do grego. Você até pode traduzir o tempo presente em grego pelo mesmo presente que em português. Na maioria das vezes não causará problemas de alteração do sentido do texto como um todo. No entanto uma tradução para o presente no português trará uma perda de essência e, algumas vezes, de significado. O melhor é traduzir usando o presente contínuo, ou o nosso gerúndio.

No dicionário, em português, encontramos o significado de um verbo através do verbo no infinitivo. Suponhamos que eu não saiba o significado do verbo “falamos”. Eu não vou achar “falamos” no dicionário porquê ele é a conjugação de um verbo. Eu preciso procurar no dicionário pelo infinitivo de “falamos” que é “falar“. Embora em grego o verbo também tenha seu infinitivo, no dicionário, um verbo grego sempre será encontrado através da conjugação da primeira pessoa do singular.

 “Nos dicionários gregos, os verbos não aparecem no infinitivo, mas na primeira pessoa do singular do presente do indicativo ativo ou, no caso dos verbos defectivos, na primeira pessoa do singular do presente do indicativo médio ou passivo.”

Noções do Grego Bíblico, Gramática Fundamental, de Rega e Bergmann diz (página 35)

Quais são as terminações pessoais em grego para o tempo presente do indicativo (o modo indicativo é o modo que expressa uma certeza, um fato) na voz ativa?

1˚ Pessoa do Singular: λέγω -> Eu estou falando (* É assim que a palavra estará no dicionário)
2˚ Pessoa do Singular: λέγεις -> Tu estás falando
3˚ Pessoa do Singular: λέγει -> Ele/Ela está falando
1˚ Pessoa do Plural: λέγομεν -> Nós estamos falando
2˚ Pessoa do Plural: λέγετε -> Vós estais falando
3˚ Pessoa do Plural: λέγoυσι(v) -> Eles/Elas estão falando
Infinitivo: λέγειν (falar)

Percebeu que a raiz do verbo não mudou? Sempre ficou “λέγ”. Após a raiz, acrescentamos a terminação pessoal para o presente do modo indicativo na voz ativa. Isso funcionará para a grande maioria dos verbos gregos na mesma situação.

O que você precisa decorar? Para o presente do indicativo na voz ativa, ou seja, o presente da língua portuguesa (com gerúndio), basta decorar essas terminações:

ω | o
εις | eis
ει | ei
ομεν | omen
ετε | ete
ουσι(v) | usi(n)

Exercício

Faça você mesmo o teste. Pegue o verbo λὐω. O verbo significa soltar. Conjugue ele usando as terminações que vimos para o presente do indicativo, voz ativa:

λὐ….
λὐ….
λὐ….
λὐ….
λὐ….
λὐ….

Use os comentários para dar a resposta! Ficarei feliz em corrigir as respostas. Ahhh… não esqueça de deixar a tradução do lado. Lembre-se que o tempo presente em grego expressa continuidade.

Na próxima lição você verá uma introdução aos substantivos. Até lá!

Referências Bibliográficas

  • Gramática Fundamentos do Grego Bíblico, de William D. Mounce. Edição de Julho de 2009.
  • Gramática Noções do Grego Bíblico, de Rega e Bergmann. 1a Edição, 2004.
  • Noções do Grego Bíblico – Gramática Fundamental , de Rega e Bergmann. 3a Edição, 2014.

16 comentários

  1. Pingback: História do Grego Koiné - Lição 1 | WillBlog

  2. Rogério Responder

    Boa tarde. Ótima explicação mas tenho uma duvida no grego e gostaria de tira la pode me ajudar? qual a forma que um verbo é expresso no grego? a- Pela primeira pessoa do singular do presente do indicativo na voz media, b- na terceira pessoa do singular do presente do indicativo voz ativa, c- do Nominativo, d- do presente do indicativo na voz ativa. Pode me ajudar?

    • William Zimmermann Autor do postResponder

      Embora tenha uma forma infinitiva, no grego koiné, o verbo geralmente é retratado nos dicionários na primeira pessoa do singular, no modo presente do indicativo ativo. Veja o que o livro Noções do Grego Bíblico, Gramática Fundamental, de Rega e Bergmann diz (página 35): “Nos dicionários gregos, os verbos não aparecem no infinitivo, mas na primeira pessoa do singular do presente do indicativo ativo ou, no caso dos verbos defectivos, na primeira pessoa do singular do presente do indicativo médio ou passivo.”

      Espero ter ajudado, mesmo que de forma tardia.

  3. carlos Responder

    tem o verbo desviar masculino e feminino? o mesmo verbo pode ser masculino e feminino ? como no hebraico?

    • William Zimmermann Autor do postResponder

      Olá Carlos. Em grego, assim como em porfuguês, o verbo não é flexionado em gênero, como o é em hebraico. Sendo assim, “desviar” não é masculino nem feminino. O verbo desviar é “διαστρέφω” – diastrepho (eu desvio). Em Atos 13:8, por exemplo, esse verbo (“διαστρέψαι”) é usado quando fala-se de “Elimas” tentar “desviar” o procônsul.

  4. Maria Santiago Responder

    Boa tarde. A letra omikron aparece na 3ª pessoa do plural, entretanto na pronúncia não, a pronúncia conforme quadro está usi(n), por qual razão não é ousin?

    • William Zimmermann Autor do postResponder

      Olá Maria. Obrigado por deixar um comentário. Isso acontece porque eu não costumo usar em meus artigos a pronúncia Erasmiana, popularizada no Brasil. Não há nada de errado em usar a pronúncia erasmiana, mas eu costumo usar a mesma pronúncia do grego moderno – herança da minha primeira professora de grego, que por sinal é Grega. Assim sendo, “ou” tem o som de “u”, do português. Falo sobre a diferença entre a pronúncia erasmiana e a do grego moderno no artigo anterior: https://www.williamzimmermann.com.br/2020/03/31/grego-koine-licao-2-alfabeto-e-transliteracao/. Nesse artigo, falo da pronúncia das letras e dos ditongos nos dois sistemas.

      Vale lembrar que a pronúncia erasmiana NÃO é a pronúncia original do grego clássico ou mesmo do koiné, tampouco é uma pronúncia uniforme (dependendo do seu idioma nativo, a pronúncia soará diferente). A pronúncia do grego moderno também provavelmente NÃO é a pronúncia original do grego. As línguas são vivas e mudam constantemente.

      Espero ter respondido a sua dúvida.

  5. Eder Moraes Responder

    Muito bom dia

    Esta forma (presente do modo indicativo no caso ativo) seria o mesmo que dizer
    (presente do indicativo no caso VOZ ativa)? Se não for, poderia ter a amabilidade de informar como seria?

    Você já tem algum material com o (PRESENTE DO IMPERATIVO DA VOZ ATIVA)?

    • William Zimmermann Autor do postResponder

      Bom dia Eder!

      Muito obrigado pela pergunta. Peço desculpas, foi um erro da minha parte. Não sei o que me deu de dizer “caso ativo” – não existe caso ativo, mas sim “VOZ” ativa, como bem destacado por você. Já fiz a correção no texto.

      Os casos em grego são: Nominativo, Genitivo, Dativo, Acusativo e Vocativo ou, como eu gosto de me lembrar, NGDAV. Já a VOZ pode ser “Ativa, Passiva ou Média”.

      Sobre material com o Presente do Imperativo da Voz Ativa, tem o livro que mais gosto sobre gramática básica: Noções do Grego Bíblico – Gramática Fundamental, de Rega e Bergmann. Na 3a Edição (2014). Na página 279 ele trata exatamente sobre esse ponto.

      Espero ter ajudado. E obrigado pela correção.

  6. Pingback: Grego Koiné – Lição 4: Substantivos (declinações e casos)

  7. Kátia Elaine do Carmo Responder

    Estou analisando os verbos “Ide, fazei e batizando”, ditos por Jesus em Mateus 28:19. Há alguma explicação mais detalhada para esses verbos? estou estabelecendo uma comparação com os verbos em Língua Portuguesa, mas em grego há muita mudança.

    • William Zimmermann Autor do postResponder

      Olá Kátia. Não sei se isso te ajuda, mas aqui vai uma análise dos verbos solicitados:

      • πορευθέντες. Ide. Vem do verbo grego πορευομαι (poreuomai) que significa “partir”, “conduzir”, “viajar”. Em Mateus 28:19, o verbo está no aoristo, passivo, particípio, no plural: “vocês vão!”, “vocês partam!”, “vocês viagem!”. Por estar no particípio, poderia ser traduzido como “partindo”, “viajando”, “indo”. No entanto, por estar no aoristo, ele poderia ser traduzido como “Ao ir”, “Ao partir”, “Ao viajar”. Mas o aoristo pode também ser uma ordem e poderia ser lido como “Vão!”, “Viagem!”, “Partam!”. Em Mateus 2:8 temos o uso do mesmíssimo verbo na ordem de Herodes: “Vão e procurem com cuidado a criança.”
      • μαθητεύσατε. Discipulando/Fazendo Discípulos. Vem do verbo μαθητευω (matheteuo) que significa “ser aluno/discípulo de alguém”. Neste texto, o verbo está no aoristo, ativo, imperativo, na segunda pessoa do plural. Portanto é uma ordem: “Façam discípulos!”/”Discipulem!”. No texto grego de Mateus 28:19 não há o verbo “fazer”. Mas a adição da palavra em uma tradução é necessária para dar sentido em português, já que “discipulem” não é uma palavra muito usada em nossa língua. Ou seja, “façam discípulos!”.
      • βαπτίζοντες. Vem do verbo grego βαπτίζω (baptizo), que significa basicamente batizar, mergulhar, imergir em água, ser engolido ou mergulhado em alguma coisa. Aqui o verbo está no presente, ativo, particípio, nominativo plural masculino. Por estar no particípio nominativo plural masculino, a tradução para o português ficaria “batizando”.

      Não sei bem se é isso que você esperava, mas fico à disposição.

  8. Moisés Paulino Responder

    Olá. estou tentando entender porque a NVI traduz Mt.25.16 poreuomai por ‘saiu imediatamente’, não vejo o porque da adição do imediatamente? Seria porque é um verbo aoristo? o verbo se refere a uma ação no passado? A tradução RC diz somente foi, ela foi mau traduzida?

    • William Zimmermann Autor do postResponder

      Olá Moisés,

      Interessante sua pergunta. É interessante notar que não é só a NVI que traduz por algo como “saiu imediatamente”. Versões mais recentes da Almeida e outras traduções mais modernas fazem o mesmo. A ARC traz “tendo ele partido” e a NAA traz “saiu imediatamente”. Seguem algumas considerações:
      1. πορευθεὶς, como você bem destacou, está no Aoristo. Isso pode indicar uma ação única, pontual/momentânea na linha do tempo. Mas esse não parece ser o fator dessa escolha.
      2. Ambas as traduções trabalham com a mesma idéia, mas em versículos diferentes: note que a ARC traz a ideia do imediatamente no versículo 15 ao invés de no versículo 16 ao dizer: “e ausentou-se logo para longe.” No texto padrão “Novum Testamentum Graece” (NTG) o advérbio “imediatamente/em seguida” é εὐθέως (eutheos). A ARC encara esse advérbio como fazendo parte da última frase do versículo 15 enquanto as traduções mais modernas tendem a encará-lo como parte da construção da frase imediatamente a seguir. No NTG, εὐθέως está no final do versículo 15, depois da expressão “καὶ ἀπεδήμησεν” (e viajou para longe/partiu). Mas está precedida de um ponto final. Veja como a comissão do NTG formatou o texto:

      15… καὶ ἀπεδήμησεν. εὐθέως 16 ⸀πορευθεὶς

      Note que εὐθέως (imediatamente) faz parte da construção de πορευθεὶς (partiu) e não de καὶ ἀπεδήμησεν (e viajou para longe). O que eu suponho que deva ter acontecido:

      1. A ARC é baseada no Textus Receptus de Erasmo. A divisão de versículos para o Novo Testamento, foi feita por Robert Estienne. Se não me engano, ele usou o Texto Padrão de Erasmo para fazer as divisões. E ele achou que εὐθέως estava ligado com a expressão imediatamente anterior e não posterior. E assim ficou nas versões mais antigas.
      2. Com o advento dos textos padrão críticos (no bom sentido), como o de Westcott & Hort e o Novum Testamentum Graece, ficou bem estabelecido que εὐθέως pertence a expressão que hoje está nos versículos 16.

      Resumindo, a leitura mais fiel desse texto está na NVI, NAA e TNM, entre outras. Mas isso não tira o peso da ARC – a mesma ideia de imediatamente está presente se lermos o contexto. Espero ter ajudado.

  9. Moisés Paulino Responder

    Muito boa e completa a resposta!
    Realmente a localização do ponto muda o significado, vou fazer meus estudos agora usando o texto da NTG. Obrigado.
    Consegui o texto online, espero que seja como no textus receptus – https://www.die-bibel.de/en

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.