Referendo para a independência de Québec em 1995 – Parte I – Motivos históricos

Imagem mostrando edifício com a bandeira da província de Québec

Há 25 anos atrás, em 30 de outubro de 1995, por uma margem de um pouco mais de 1%, os habitantes de Québec decidiram continuar como uma província Canadense, dizendo não à soberania do Québec. Por pouco, muito pouco, o Canadá não perdeu uma de suas províncias, acrescentando um país à América do Norte. Mas o que levou a esse processo? Quais são os reflexos desse referendo hoje em Québec e no Canadá? Confira nesse primeiro artigo os motivos históricos que levaram a esse referendo.

Motivos históricos

A maioria do Canadá fala o idioma inglês, tendo sido, na sua maior parte, colonizada por ingleses. Mas nem sempre foi assim. Como você pode ver nos vários artigos que escrevi sobre a história de Québec, a descoberta do Canadá se deu principalmente com a fundação da cidade de Québec pelos franceses. Embora não tenham sido os franceses os descobridores europeus do Canadá, foram eles os primeiros europeus a colonizar permanentemente essas terras. Durante os primeiros 200 anos do Canadá, a maior parte pertenceu aos Franceses. O Canadá, por exemplo, teve seu primeiro assentamento europeu fixo (as outras tentativas não haviam dado certo) em 1608, pour Samuel de Champlain no que hoje é a cidade de Québec.

No entanto, em 1759, com a batalha de Plaines d’Abraham, Québec capitulou nas mãos dos ingleses e o Canadá era por fim inteiramente inglês. No entanto, a maioria da população de Québec continuava e continua até hoje falando o francês e tendo uma cultura diferente do resto do Canadá. Além do mais, até a revolução tranquila, a maioria dos Québecois eram católicos apostólicos romanos, fervorosos, por assim dizer. Enquanto isso, a parte inglesa era formada majoritariamente por protestantes, assim como nos EUA. Essas diferenças criaram um sentimento de não-pertencimento no coração de muitos Québecois. E, mesmo mais de 3 séculos depois, o sentimento de revanchismo contra os ingleses continua na cabeça de muitos.

Outro fator que fez com que aumentasse o espírito separatista ou, como dizem em Québec, espírito soberanista (esprit de souveraineté), é o fato da língua oficial do Canadá ter sido unicamente o inglês até 1969. Até hoje, mesmo o francês sendo obrigatório nas províncias de língua inglesa, poucos canadenses anglófonos sabem falar o francês. E vários Québecois viram o francês começar a ser substituído aos poucos pelo inglês em suas cidades e sua província – e isso muito rapidamente. A morte do francês significaria também a morte de sua cultura. Todo esse esquecimento por causa do governo Federal aumentou ainda mais o sentimento separatista.

Referendo de 1980

Por fim, em maio de 1980, um primeiro referendo para a Independência de Québec do Canadá foi organizado pelo Parti Québecois, eleito em 1976. Não é o objetivo desse artigo falar sobre esse referendo em específico. O que importa é saber que a coisa estava esquentando.

No referendo de 1980 mais de 85% dos eleitores de Québec foram às urnas. O não teve uma expressiva vitória, angariando 60%. Mesmo assim, o fato de que 40% dos eleitores queriam a separação criou um alerta vermelho no governo federal. Ao menos deveria ter criado.

Uma tentativa de reintegração

O governo federal tenta fazer as pazes com Québec, tentando “reintegrá-la” à Nação. Começam a negociação do chamado “Acordo do lago Meech” (Accord du lac Meech), em 1987. Esse acordo entre o primeiro ministro do Canadá, Brien Mulroney, e os primeiros ministros das dez províncias Canadenses visava integrar Québec à Lei Constitucional de 1982.

Québec queria que o Canadá a reconhecesse como uma “sociedade distinta” do Canadá. Queria também poder ter suas próprias leis de imigração e poder decidir fazer parte ou não de programas federais. No entanto, o acordo fracassa em 1990, tornando o cenário mais favorável aos separatistas. A pressão de vários setores do governo federal, mudanças no cenário político da província de New Brunswick (Nouveau-Brunswick), pressão do senado, pressão dos povos indígenas (autochtones), entre outros, fizeram com que o acordo não fosse para frente.

Mudança de cenário

Em setembro de 1994 o Partido Liberal de Québec (centro-esquerda), que era a favor da unidade federal, perde as eleições para o Partido Québecois (centro-direita, souverainiste, ou seja, a favor da Independência). Entre as promessas do Partido Québecois estava a convocação de um novo plebiscito para a Soberania do Québec – e assim o fazem em 30 de outubro de 1995.

Nos próximos artigos contarei um pouco mais sobre o que aconteceu durante o acirrado plebiscito e responderemos a seguinte pergunta: Quais são os reflexos desse referendo hoje em Québec e no Canadá?

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Bibliografia

  • Livro Histoire Populaire du Québec, tome 1 et 4. Jacques Lacoursière. Editora Septentrion.
  • Wikipédia: Artigo “Accord du lac Meech“, em francês, disponível em: https://fr.wikipedia.org/wiki/Accord_du_lac_Meech. Acesso em 19/10/2020.
  • Wikipédia: Artigo “Référendum québecois de 1995”, em francês, disponível em: https://fr.wikipedia.org/wiki/R%C3%A9f%C3%A9rendum_qu%C3%A9b%C3%A9cois_de_1995. Acesso em 19/10/2020.
  • Enciclopédia Britânica: Artigo “Quebec referendum of 1995”, em inglês, disponível em: https://www.britannica.com/topic/Quebec-referendum-of-1995. Acesso em 19/10/2020.

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