História do Cristianismo: Apóstolos – quem eram e quais eram suas responsabilidades?

Imagem de um Peixe e um homem sengo engolido por ele, representando Jonas. Imagem gravada em pedra em uma tumba dos primeiros cristãos.

Você já se perguntou como a Igreja (congregação) Cristã primitiva estava organizada? Havia hierarquia? Quem eram os Apóstolos? Existiam Bispos (superintendentes) e Presbíteros (homens mais velhos, anciãos)? Quem eram os Diáconos (servos)? Este artigo e os próximos são um esboço de uma pesquisa que estou desenvolvendo baseada nessas e em outras perguntas.

Como fontes primárias para estes artigos, utilizei a própria Bíblia Sagrada, especificamente o Novo Testamento (também conhecidas como Escrituras Gregas Cristãs) e o registro histórico fora da Bíblia, de dois cristãos contemporâneos dos últimos dos apóstolos, Inácio de Antioquia (68DC até 100 ou 107 DC) e Policarpo de Esmirna (69DC até 155DC). A tradução das cartas de Inácio e Policarpo foi extraída do livro Pais Apostólicos, da editora Mundo Cristão, edição de 2017.

Se você deseja apenas um resumo das conclusões que podemos tirar sobre quem eram e quais eram as funções dos Bispos, Presbíteros e Diáconos, pule para o último tópico de cada um dos artigos. Caso queira uma visão mais detalhada, comece pelo começo! Lembrando que apreciaria em muito os feedbacks e quaisquer correções ou sugestões que poderão ser lançadas para aprimorar o artigo.

Instruções de Cristo sobre a Igreja Cristã (29DC – 33DC)

O substantivo grego apostolós significa enviado. A Bíblia conta que, no início de seu trabalho (ou ministério), Jesus escolheu 12 homens para acompanhá-lo (Lucas 6:13-16.). Além desses 12, outros 70 – homens e mulheres são chamados de discípulos de Jesus, igualmente o acompanhando e os ajudando.

Esses 12 apóstolos eram as pessoas mais achegadas de Jesus (Lucas 22:28-30). Enfrentaram muitos problemas para entender o que Jesus ensinava e para se entenderem entre si. Disputavam constantemente sobre quem era o maior. Na noite do dia 14 de Nisã de 33DC, antes de morrer, ao ver mais uma discussão dos seus apóstolos sobre quem era o maior, Cristo disse: “… Os reis das nações dominam sobre elas; e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores. Mas vocês não serão assim. Ao contrário, o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa* (*ou lidera*), como o que serve. Pois quem é maior: o que está à mesa, ou o que serve? Não é o que está à mesa? Mas eu estou entre vocês como quem serve.” (Lucas 22:24-28).

Fica claro aqui que Jesus deixou um modelo de liderança. Servir, assim como ele serviu, e não esperar ser servido. Ele falou que de fato existiria liderança entre seus seguidores, mas que essa liderança deveria ser humilde e se encarar como alguém menor – um servo.

Após a morte de Jesus e a traição de um dos 12, Judas (Iscariotes), no ano 33 DC Pedro, um dos apóstolos de Jesus, tomou a dianteira e, baseando-se nas Escrituras, salientou a necessidade da substituição de Judas para completar o número de 12 apóstolos. O livro de Atos 1:15-26 salienta que, provavelmente dentre os 70 discípulos (“um dos homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus realizou suas atividades entre nós”, versículo 21 e 22), indicaram dois: José Barsabás e Matias. Depois de orarem e lançarem sortes, Matias foi escolhido com um dos 12.

Um pouco antes disso, logo depois da sua ressurreição, o Evangelho de Mateus 28:16-20 mostra que os 11 apóstolos (enviados) receberam a ordem de espalhar o evangelho, “fazendo discípulos de [pessoas] de todas as nações, batizando-os… ensinando-os a obedecer a tudo o que eu ordenei a vocês”. Sendo assim, parece lógico crer que essa era a principal função dos Apóstolos. Eles eram a fundação da Igreja Cristã (Congregação Cristã). Alguns se espalhariam (o que fez com que perdêssemos notícias sobre vários dos 12 apóstolos) e outros ficariam pela região da Judeia, tal como Pedro, Tiago e João. O que sabemos dos outros encontram-se somente em obras históricas do 2˚, 3˚ e 4˚ séculos depois de Cristo, e ainda assim com uma certa dúvida.

Os apóstolos e Jerusalém

Como mencionado no parágrafo anterior, muitos dos apóstolos se espalharam. Isso aconteceu também com os 70 discípulos. O “espalhamento” se agilizou com a perseguição que os Cristãos estavam sofrendo. No entanto, parece que a Base (no sentido de ponto de encontro) do Cristianismo se encontrava na cidade de Jerusalém. É à partir de lá que os discípulos e apóstolos se espalharam pelo mundo e, quando surgiam problemas nas novas igrejas (congregações), os cristãos recorriam aos apóstolos em Jerusalém para encontrar uma resposta.

Um exemplo do mencionado anteriormente é o que está relatado em Atos 4:1-37. Logo de início vemos que Pedro toma a liderança entre os apóstolos e age como porta-voz deles. Vemos a autoridade dos 12 apóstolos nos versículos 33-35, que diz que “com grande poder os apóstolos continuavam a testemunhar da ressurreição do Senhor Jesus, e grandiosa graça estava sobre todos eles… e colocavam aos pés dos apóstolos [o dinheiro para a distribuição aos necessitados]…”. Com base nisso, podemos concluir que a organização do Cristianismo no ano 33 DC girava em torno dos apóstolos – eles eram a referência para os outros cristãos. Eles atuavam como mordomos, ou servos dos seus co-escravos, seus irmãos na Fé.

No tópico anterior foi falado da escolha de Matias para substituir Judas e preencher o número de 12. Mas será que sempre seria assim? Aparentemente não. Por quê? Em Atos 12:1, 2 relata a morte do Apóstolo Tiago, irmão do Apóstolo João. E a Bíblia não fala de nenhuma substituição de Tiago no cargo de apóstolo… E assim se deu com os outros que foram sofrendo martírio aos poucos.

Conforme dito, inicialmente os apóstolos eram a referência para todos os cristãos em matéria de organização e entendimento da nova fé. Quando surgiu um problema na distribuição de alimento entre as viúvas dos judeus que falavam grego e os judeus que falavam hebraico, conforme relatado em Atos 6, os 12 apóstolos reuniram a multidão dos discípulos e tomaram uma atitude (versículo 2). E é aí que começamos a ver uma distinção de funções e a criação de um novo cargo de serviço…

Primeiro, vemos em Atos 6:2 e 4 que os apóstolos entenderam que sua função era o estudo da Palavra de Deus e seu ensino – não era distribuir alimento. Os versículos mencionados dizem: “não é correto que deixemos a palavra de Deus para servir alimento às mesas… Mas nós mesmos [os apóstolos] nos dedicaremos à oração e ao ministério da palavra.” Nesse momento, criou-se uma nova função na Igreja Cristã, uma função de diakonia, ou seja, de serviço. O versículo 3 diz: “Irmãos, escolham entre vocês sete homens de bom testemunho, cheios de espírito e sabedoria. Passaremos a eles essa tarefa…”. No versículo 6 diz: “Apresentaram esses homens aos apóstolos, os quais oraram e lhes impuseram as mãos.” Sendo assim, podemos concluir que, no início do Cristianismo, a Igreja era liderada de Jerusalém pelos Apóstolos e eram eles quem escolhiam ou autorizavam outros cristãos a exercerem cargos de serviço, ou liderança.

Mas ainda a Igreja não estava 100% estruturada. Ao surgirem novas igrejas, precisava-se de liderança para elas. É aí que surgem os pregadores itinerantes, tal como Filipe (não confundir com o apóstolo Filipe), Barnabé, e o mais famoso, Paulo… Esses pregadores iam desbravando territórios e abrindo novas igrejas.

Antes de falarmos da organização das igrejas, vamos concluir o assunto dessa “centralidade” em Jerusalém. Veja mais evidências que havia uma certa organização na primitiva Igreja.

Atos 8:14-17 fala que os apóstolos ouviram que em Samaria muitos haviam aceitado a palavra de Deus. O que os apóstolos fizeram? Enviaram para lá Pedro e João como representantes!

Atos 9, falando de Saulo (que se tornaria o Apóstolo [Enviado] Paulo), diz que, depois de algum tempo de sua conversão, ele foi até Jerusalém e muitos discípulos fugiam dele, pois ainda estava receosos que aquela conversão tivera sido enganosa… Afinal, ele era antes um conhecido perseguidor dos cristãos. O redimido Paulo queria conhecer os apóstolos, mas não conseguia. Quem conseguiu isso, apresentar Paulo para a liderança Cristã foi Barnabé. Os versículos 27 e 28 dizem: “Então Barnabé o levou aos apóstolos e lhes contou como, no caminho, Saulo vira o Senhor, que lhe falara, e como em Damasco ele havia pregado corajosamente em nome de Jesus. Assim, Saulo ficou com eles…”. É interessante que, falando dessa ocasião, Paulo relata em Gálatas 1:18, 19, que outra pessoa estava aparentemente ocupando uma posição de autoridade no cristianismo, Tiago, não o apóstolo, mas sim o irmão carnal de Jesus. Veremos isso mais adiante.

Outro fator que mostra a liderança dos apóstolos foi na conversão do primeiro não judeu (gentio) ao Cristianismo, Cornélio. Pedro relatou voltou a Jerusalém e prestou contas aos apóstolos e outros irmãos sobre essa conversão (Atos 11:1-18).

E é por causa dos gentios que vemos nova atuação da liderança central cristã em Jerusalém. Os gentios deviam ou não ser circuncidados? Atos 15 e 16 relata os acontecimentos. Ali diz que Paulo e Barnabé inicialmente tentaram resolver a questão – isso mostra que eles tinham certa autoridade como pregadores viajantes, e também exerciam a liderança. Mas eles por si só não podiam tomar a decisão. Havia muita coisa em jogo. O que fizeram? Apelaram para uma “posição superior”, escalonaram o chamado… O relato diz: “Assim, Paulo e Barnabé foram designados, com outros, para irem a Jerusalem tratar dessa questão com os apóstolos e com os presbíteros“. Para fim de referência, o substantivo grego presbiterós significa basicamente “homem mais velho, ancião“.

E aqui temos o chamado primeiro concílio cristão, o Primeiro Concílio de Jerusalém. Atos 15:6 relata o que aconteceu a seguir em Jerusalém: “os apóstolos e os presbíteros se reuniram para considerar essa questão”. Fala que todos apresentaram seus argumentos e seus testemunhos. Aquela comissão de apóstolos e presbíteros tomaram uma decisão e Tiago (irmão do Senhor), toma a dianteira e dá o veredito.

No entanto, após a destruição de Jerusalém em 70 DC e a morte da maioria dos apóstolos pouco antes disso, a centralidade das decisões foi desaparecendo aos poucos. Tudo indica que os poucos apóstolos e presbíteros remanescentes que conheceram a Jesus serviam como fonte de consulta quando algum problema surgia. Parece que era através do contato por meio de cartas e visitas pessoais, que os Bispos (um artigo ainda será escrito sobre eles) das várias Igrejas serviam como um “corpo apostólico” (como diz Inácio) para preservar a unidade do Cristianismo.

Resumo

Que conclusão podemos chegar desse relato e do desenvolvimento da Igreja até aqui?

A Igreja estava organizada e era liderada pelos Apóstolos em Jerusalém. Eles formavam um comitê central. Esse comitê enviava representantes para vários lugares. Evangelizadores viajantes abriam novas igrejas. Esse comitê central era formato inicialmente somente por apóstolos. O objetivo deles era designar, estudar e ensinar a Palavra. Os apóstolos resolviam questões importantes mas não se metiam com a parte técnica das coisas (como distribuição de alimento). Para isso, designavam outros. A Bíblia mostra a liderança de Pedro em determinado momento e em outro de Tiago (meio irmão de Jesus), o que indica que o colegiado não era baseado em uma espécie de Monarquia Teocrática, tal como o Papado o é hoje. Em determinado momento, como mostrado, outros cristãos (como Tiago), que não eram apóstolos, começaram a fazer parte desse colegiado em Jerusalém. Eles eram chamados de presbíteros, ou anciãos.

Qual era a função desses presbíteros ou anciãos? E os diáconos? E os bispos? Qual era a hierarquia? Tentarei responder a essas e outras perguntas nos próximos artigos.

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