O que faz uma tradução da Bíblia ser boa? (Parte 1)

Com tantas traduções da Bíblia disponíveis você já parou para se perguntar qual era a melhor? Em português temos várias traduções aclamadas, tais como a Versão Brasileira, João Ferreira de Almeida, Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional, Bíblia na Linguagem de Hoje, Bíblia Fácil de Ler, Padre Figueiredo, etc. Mas o que faz uma tradução da Bíblia ser realmente boa?

Neste post não direi qual é a melhor tradução da Bíblia existente em português. Embora tenha minha opinião, não a exporei aqui. O objetivo é lhe expor o que é uma boa tradução. Mas então, o que é uma boa tradução da Bíblia?

Não existe mais o texto original

Antes de mais nada é importante você saber uma coisa. O texto original da Bíblia, quer os hebraicos e aramaicos do chamado Antigo Testamento, quer os escritos gregos (e provavelmente hebraico no caso do evangelho de Mateus), não estão mais disponíveis. Por quê? Porque a escrita era feita em material perecível, tal como couro raspado, papiro e outros materiais. Além disso, como nos tempos da perseguição aos cristãos no primeiro século de nossa era, muitos escritos cristãos e judaicos foram queimados ou destruídos de outra forma.

Sendo assim, tudo o que temos atualmente são cópias dos escritos originais. Podemos afirmar que essas cópias são confiáveis? Sim. Por quê?

Cópia – mas confiável

Muitos críticos tem a mania de dizer que a Bíblia não é confiável pois os textos não passam de cópias de cópias. Dizem que com isso ela perdeu o sentido original, seu conteúdo e essência. Alegam que cópias de cópias suscitariam erros de erros. Mas tais críticos desapercebem-se dos seguintes fatos:

  • Atualmente possuímos cópias muito próximas aos escritos originais;
  • As cópias disponíveis não são únicas – há cópias irmãs, ou seja, que são cópias da mesma fonte ou de outra fonte;
  • Os copistas, tanto os hebreus quanto os cristãos, seguiam uma tradução rigorosa para a cópia dos livros sagrados. Sabe-se por exemplo que os copistas judeus até mesmo contavam o número de caracteres do texto base e o comparavam com sua cópia para conferir se não haviam esquecido ou errado na hora da cópia;
  • Achados recentes tais como so Rolos do Mar Morto, onde encontrou-se por exemplo fragmentos de vários livros Bíblicos, tais como o de Isaías, revelaram que, embora com diferença em certos pontos dos escritos que tínhamos até o achado (tais como erros de grafia), essas diferenças eram mínimas e não alteravam o sentido do texto;
  • Quem critica os textos bíblicos quanto a sua confiabilidade não costuma criticar outros textos, tais como os de filósofos ou pensadores da antiguidade, textos esses que são apenas cópias – cópias estas que são muito mais posteriores aos originais e cujos copistas não tinham tanta diligência como os copistas judeus ou cristãos. Por quê será a crítica?

De onde vem o texto para a tradução?

Talvez você já tenha se perguntado de onde vem o texto da tradução da Bíblia. Será que os tradutores consultam fragmento por fragmento, papiro por papiro, códice por códice? Na grande maioria não. Alguém já teve esse trabalho.

Os tradutores da Bíblia usam o que chamamos de Texto Padrão. Para simplificar a explicação, o chamado “Texto Padrão” é uma compilação dos fragmentos, papiros e códices dos textos da Bíblia. Quem compilou ou compila esses textos padrão são eruditos, grandes conhecedores das línguas originais da Bíblia. Não são necessariamente religiosos. São mais estudiosos do que religiosos propriamente ditos. Como funciona?

Imagine que seu professor de inglês peça para um grupo de 10 alunos copiarem a mão um texto que ele passará na lousa. Após isso, ele entregará os textos dos alunos para outros 10 alunos diferentes copiarem. Ele faz isso consecutivamente, umas 3 ou 4 vezes. Não seria sensato acreditarmos que todas as cópias estarão impecáveis, perfeitas. Haverá erros, quer de sintaxe quer de semântica. Algumas vezes poderá haver sim perda de sentido. Mas será que todos os textos enfrentam esses problemas? Talvez todos tenham erros aqui e acolá. Mas o que o deveria ser feito para chegar no texto original?

Para chegar no texto original um grupo de outros 10 alunos poderia recolher os textos do último grupo de 10 alunos, por exemplo. Após comparar todos os textos, verificariam quais os textos mais corretos. Com o tempo, poderia ser revelado ao grupo de “revisores” um dos textos copiados pelo segundo grupo, por exemplo. Assim, o grupo de “revisores” poderia ter um único texto confiável.

O mesmo ocorre com os textos da Bíblia. Alguns eruditos compilaram cópias da Bíblia muito antigas e fizeram um texto padrão. São tais textos padrão que são usados pelos tradutores da Bíblia ao fazerem suas traduções.

Alguns dos textos padrões mais aclamados são o Textus Receptus (ou Texto Recebido), de Erasmo de Roterdã e os chamados textos da alta crítica, tal como o Novo Testamento no Grego Original de Westcott e Hort, o texto hebraico Massorético e a Bíblia Hebraica Stuttgartensia (baseada no texto Massorético).

Atualmente, com novas descobertas arqueológicas e o aprimoramento dos estudos das línguas originais da Bíblia por eruditos e tradutores, novos textos padrão foram criados. É importante destacar que os textos da alta crítica são assim chamados não por criticarem a Bíblia ou tentarem achar defeitos nela. Antes são textos padrão baseados em cópias mais antigas da Bíblia, tanto a hebraica judaica quanto a grega cristã.

No próximo artigo…

No próximo artigo considerarei pontos tais como: texto crítico x textus receptus de Erasmo; características de uma boa tradução; Análise das traduções da Bíblia na Língua Portuguesa.

PRINCIPAIS FONTES

  • Uma Breve História do Cristianismo, de Geoffrey Blainey;
  • Sociedade Bíblica do Brasil (site);
  • Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada (edição de 2015, Apêndice A);
  • História Eclesiástica (Eusébio de Cesaréia, considerado o Pai da História da Igreja);

 

 

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