A história da cidade de Québec: a terceira viagem de Cartier & Roberval

Imagem mostrando Jacques Cartier e Roberval

No artigo anterior, vimos que o Canadá já havia sido “descoberto” pelos europeus muitos anos antes da vinda dos italianos, portugueses e finalmente os franceses. Os nórdicos já haviam pisado aqui. No entanto, a reivindicação do Canadá como território de um país Europeu só se deu de fato com os Franceses, em 1534.

Jacques Cartier fez duas viagens iniciais ao Canadá, que passou a ser conhecido por Nova França. O objetivo, inicialmente, era descobrir uma rota alternativa para a China. Esse objetivo continuou a permear as cabeças de vários exploradores até muito tempo depois de Cartier.

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A rota para a China

Talvez você esteja se perguntando, por quê encontrar uma nova rota para a China? Bem, o motivo principal é que, algumas décadas antes, Constantinopla, que servia como galardão da “europa cristã” havia sucumbido e agora era território turco/muçulmano. Além disso, Constantinopla servia como um Hub seguro entre a Europa e a Ásia. Agora não era mais assim. Uma nova rota parecia ser essencial para a saúde do comércio.

Contexto Histórico

Como vimos, ao retornar de sua segunda viagem, Jacques Cartier levou consigo alguns nativos, bem como o chefe Donnacona. Jacques se aproveitou de uma disputa entre Donnacona e Agona (outro indígena que queria liderar a tribo). Atraindo Donnacona e cerca de 10 indígenas para o navio, prometendo ajudar o chefe nessa disputa, Cartier os aprisiona e os leva à força para a Nova França. No dia seguinte, ele consegue convencer Donnacona a acalmar os outros indígenas, prometendo voltar em 10 ou 12 luas.

Em 16 de julho de 1536 Jacques Cartier chega com os “convidados” à França. A situação lá já não era a mesma. A França estava em guerra com o Imperador Carlos V. Carlos dominava várias porções da Europa – boa parte do que hoje é a Alemanha, Holanda, Itália e toda a Espanha (veja o mapa abaixo). Sobre a situação dos “convidados”, pelo que sabemos, eles foram muito bem tratados, sendo bancados como convidados do Rei da França. A ordem é que todos os seus desejos fossem atendidos.

Domínios dos Habsburgos na época da abdicação de Carlos V.

Como resultado, a França, que estava literalmente rodeada por inimigos, fez no dia 14 de julho de 1536 (dois dias antes de Cartier chegar na França) um tratado de amizade com Portugal, cujo Rei era João III (cunhado de Carlos V 😱). E isso, meus amigos, teve um grande impacto na colonização do Canadá. Por quê? Porque, para agradar o Rei de Portugal, quase um ano depois, em 30 de maio de 1537 (enquanto Cartier planejava uma nova viagem para a Nova França), François I assina um decreto impedindo a todos os franceses de “viajarem nas terras do Brasil, Malagueta ou em quaisquer terras descobertas pelos reis de Portugal, sob pena de confisco de seus navios, suplementos, e mercadorias.”

A morte de Donnacona

Passam-se 2 anos. Estamos em 25 de março de 1538. Donnacona e 2 iroqueses são batizados. A promessa de 10 ou 12 luas para o retorno não foi cumprida. Um a um, os indígenas que vieram nessa terceira viagem não resistem às doenças dos europeus e sucumbem. Donnacona morre em 1539, sem ter tido a oportunidade de voltar à sua terra – pouco tempo depois, Jacques Cartier finalmente conseguir organizar tudo para voltar à Stadacona (Québec).

Organizando a viagem

Jacques Cartier consegue patrocínio para voltar para a Nova França. Dessa vez com uma expedição de 400 pessoas. A condição já era mais favorável pois, em 18 de junho de 1538 fora assinado a Trégua de Nice, pondo fim à guerra entre França e Espanha.

Entre essas 400 pessoas financiadas pelo Rei, estavam carpinteiros, pedreiros, artesãos, padres, mineiros, especialistas em forja, um médico acompanhado de seu assistente, dois boticários (cada um com dois assistentes), especialistas de todas as áreas, padres e seus assistentes – homens, mulheres e crianças. Além disso, levariam consigo mantimentos para alguns anos, grãos de toda sorte para plantar e sal para trocar com os indígenas. O objetivo? Fundar a primeira colônia francesa na Nova França.

Mas Jacques Cartier não seria o líder dessa missão. Para isso, o rei escolheu Jean-François de La Roque senhor de Roberval. Parece que ele tinha certa influência na corte, alguma experiência militar e era aparentado com a amante do Rei, Diane de Poitiers. Jacques Cartier seria o segundo nessa missão – depois de Roberval.

Desenho de Roberval
Jean François de La Roque – Senhor de Roberval

Mas ainda faltaria gente disposta a se aventurar na Nova França. Faltava gente disposta a enfrentar a privação dos confortos que a França oferecia (se bem que, na época, a coisa tava feia na França). Aonde arrumariam mais pessoas para a nova colônia?

Em 7 de fevereiro de 1541 uma ordem real autorizou Cartier e Roberval a recrutarem prisioneiros que estivessem dispostos a trocar suas penas pela missão de povoar a Nova França. Eles receberiam recursos reais para montar uma vida nova nas Américas. Em 10 de abril de 1541, conduzidos em correntes pelos seus carcereiros, homens e mulheres recebem enfim a liberdade ao embarcarem em um dos navios de Roberval e Cartier.

No início de maio de 1541, Roberval chega ao porto de Saint-Malo, onde todos estavam esperando. Os 5 navios estavam “prontos”: Grande Hermine, Émérillon, Saint-Brieux, Georges e um 5˚ navio que não sabemos o nome. Quem não estava pronto era Roberval. Ele ainda aguardava os suprimentos de pólvora e artilharia para poder trazer certa segurança à viagem. Mas, com a demora, ele decide dar poderes totais a Cartier e mandá-lo na frente, enquanto ele espera a chegada desses suprimentos. O plano era encontrá-lo algumas semanas ou no máximo poucos meses depois em Stadaconé/Stadacona.

A terceira Viagem

Finalmente, em 23 de maio de 1541, Jacques Cartier levanta as âncoras e parte para sua terceira e última viagem à Nova França. A viagem não foi fácil. Ventos contrários retardaram a navegação. Eles chegam no rio Saint-Croix (hoje Rio Saint-Charles – clique no link para ver o local no Google Maps), em Stadaconé (Québec), em 23 de Agosto de 1541.

Mas a nova colônia não seria construída em Stadaconé. Não perca o próximo artigo para saber mais sobre a primeira tentativa de colonização francesa na Nova França.

Bibliografia

. Livro Histoire Populaire de la Nouvelle France. Edição EPUB de 2019. Escrito por Jacques Lacoursière.
. The Canadian Encyclopedia. Disponível em: thecanadianencyclopedia.ca.
. Diversos artigos da Wikipedia em francês e inglês.

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